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O preço da mineração no coração do Pantanal: água turva na comunidade e dúvida nos cofres de Corumbá

Levantamentos apontam queda nos royalties da mineração pagos em Corumbá entre 2022 e 2025; moradores aguardam água potável

Gabriel Corrêa
Por: Gabriel Corrêa
30/10/2026 às 08h23 Atualizada em 30/10/2026 às 17h15
O preço da mineração no coração do Pantanal: água turva na comunidade e dúvida nos cofres de Corumbá
Comunidade rural relata lama em reservatórios, e na Câmara há pedido para saber por que a extração cresce e os royalties caem. - Foto: Divulgação

A água avermelhada que chegou às casas da Comunidade Tradicional de Antônio Maria Coelho, na zona rural de Corumbá, levou moradores ao Ministério Público Estadual (MPE), enquanto na Câmara Municipal o vereador Yussef Salla pede que se investigue por que a mineração avança e a arrecadação do município diminui.

A mudança foi notada na quinta-feira (29). Naquele dia, as famílias encontraram a água usada nas casas avermelhada, turva e com partículas visíveis. Imagens feitas pelos próprios moradores mostram o líquido barrento e pessoas retirando muita lama dos reservatórios.

Uma comunidade sem alternativa à mão

A comunidade fica a cerca de 45 quilômetros da área urbana, na região de influência das minas de Urucum, operadas pela LHG Mining. Uma pesquisa da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul) estima em cerca de 130 o número de moradores. Não há rede pública de água potável nem esgotamento sanitário, e o caminhão-pipa também não abastece o local. Um córrego e uma nascente servem para beber, cozinhar, tomar banho e trabalhar. Por isso, qualquer alteração nessas fontes atinge a rotina inteira das famílias.

Versões sobre a origem da lama

 - Foto: Divulgação 

Morador da região, Edvaldo Santana de Oliveira atribui o problema ao transbordamento da água da chuva na estrada de acesso à mineradora. Segundo ele, a contenção que existe na área falhou, e a água misturada à lama alcançou os reservatórios que abastecem a comunidade.

Procurada, a LHG Mining não comentou a falha apontada pelo morador. Em nota, afirmou que a comunidade foi impactada pelo escoamento de água das estradas após as fortes chuvas, que está dando suporte aos moradores e que a situação “será resolvida com brevidade”.

Edvaldo reclama da demora na limpeza. De acordo com ele, os próprios moradores começaram a retirar a lama, e representantes da empresa estiveram no local e disseram que voltariam no dia seguinte. “Para nós, não tem amanhã não”, disse. Ele lembra que ainda é preciso limpar as caixas d’água das casas e espera que as autoridades deem mais atenção à comunidade.

O que pede a representação ao MPE

O caso chegou ao MPE por meio de representação do advogado da comunidade, Matheus Cunha. O documento pede a abertura de procedimento para apurar a qualidade da água do córrego e da nascente, identificar a origem da alteração e verificar eventuais responsabilidades. Solicita ainda que a apuração seja incorporada a um procedimento da 2ª Promotoria de Justiça, que já acompanha os impactos da atividade minerária nas regiões de Porto Esperança e Maria Coelho, com ampliação para incluir o abastecimento de água.

À Prefeitura de Corumbá, o texto pede que o MPE cobre informações sobre como a comunidade é atendida no planejamento de saneamento básico e quais medidas existem para garantir água potável. Até a regularização, a representação solicita fornecimento emergencial de água potável. À mineradora e a uma segunda empresa que atua na siderurgia, pede dados sobre monitoramento de águas, drenagem, contenção de sedimentos, controle de efluentes, incidentes ambientais e laudos dos últimos 24 meses. A Prefeitura informou que apura a situação e avalia as medidas necessárias.

O preço da mineração

Na Câmara Municipal, o vereador Yussef Salla pede que seja investigado por que as atividades de extração de minério aumentam enquanto a arrecadação do município com a atividade fica cada vez menor. A pergunta toca no que a mineração devolve a Corumbá em troca dos impactos que gera no território, no coração do Pantanal.

A arrecadação em questão é a CFEM (Compensação Financeira pela Exploração Mineral), os royalties da mineração. Para o minério de ferro, ela incide sobre a receita bruta da venda, com alíquota de 3,5%, que a Agência Nacional de Mineração (ANM) pode reduzir a até 2%. Do valor recolhido, 60% vão para o município produtor. Como o cálculo depende da receita, e não só das toneladas extraídas, a relação entre produção e repasse não é automática, e é justamente isso que os pedidos de esclarecimento buscam checar.

Os números disponíveis apontam para uma diferença grande. Relatório da Semadesc indica que Corumbá recolheu R$ 67,4 milhões de CFEM em 2022. Em 2025, a cidade liderou a arrecadação estadual com R$ 28,16 milhões, o equivalente a 56,8% do total do Estado. Os valores vêm de levantamentos distintos, mas o de 2025 equivale a menos da metade do de 2022.

O assunto não é novo na Câmara. Neste ano, o vereador Elinho Júnior apresentou requerimentos em regime de urgência à Prefeitura, à ANM e à LHG Mining, pedindo a arrecadação trimestral de 2025 e do primeiro trimestre de 2026, esclarecimentos sobre eventual aumento da extração e a realização de audiência pública. Em abril de 2025, o vereador Alexandre Vasconcellos pediu à empresa o total de toneladas extraídas desde o início das atividades e um relatório dos valores destinados ao município. Já no Ministério Público, há inquérito administrativo para acompanhar e fiscalizar os impactos da atividade mineral sobre comunidades e meio ambiente em Corumbá, com anúncio de nova perícia técnica.

Os próximos passos dependem de respostas em quatro frentes: do MPE ao pedido da comunidade, da Prefeitura sobre a água e o saneamento no local, da empresa sobre as providências anunciadas e da Câmara sobre o pedido do vereador. Nas informações obtidas pela reportagem, não há laudo divulgado sobre a qualidade da água, e os dados mais atualizados da arrecadação ainda dependem do que Prefeitura e ANM vierem a informar.

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